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artigos

Cristina Flores

Édipo Adotado

Édipo matou seu pai, ou somente seu genitor? A tragédia de um conflito entre o que se nasce e o que se é

Uma revisão lacaniana do mito sobre o mito

Édipo talvez seja o personagem mais conhecido da tradição psicanalítica. Seu nome atravessa a literatura, a filosofia, a antropologia e, sobretudo, a psicanálise. Freud encontra no mito uma estrutura capaz de nomear uma questão fundamental da constituição subjetiva. Lacan, posteriormente, retoma Édipo em sua elaboração do significante, da função paterna, do Nome-do-Pai e da estrutura simbólica.

A primeira pergunta que orienta este artigo é o que acontece quando conceitos lacanianos servem como chaves para leitura do mito? Não se trata de corrigir Sófocles a partir de Lacan, ou de afirmar que Lacan descobriu algo que o mito não sabia. A hipótese aqui é que aquilo que Lacan nos permite formular já estava em cena. A distinção entre aquilo que aconteceu e aquilo que se diz que aconteceu; entre o homem que morreu e o lugar que esse homem ocupa para o sujeito; entre procedência e filiação; entre o Real e a narrativa produzida no campo do Outro — tudo isso pode ser reencontrado na própria estrutura da tragédia.

Lacan fornece, portanto, para além de uma explicação posterior do mito, instrumentos para tornar legível uma diferença que o mito já continha.

É nesse sentido que Édipo Adotado funciona como um experimento literário: ao separar genitor de pai, genitora de mãe e origem de filiação, o texto produz uma alteração na estrutura conhecida e, essa alteração modifica o destino do personagem.

O que faz alguém ocupar o lugar de pai ou de mãe para um sujeito?

O que acontece quando uma narrativa sobre a origem se sobrepõe à própria realidade do sujeito? Édipo é culpado, matou Laio, o que Édipo não fez foi matar seu pai. E essa diferença desloca a tragédia.

ÉDIPO ADOTADO, por Cristina Flores

Laio perde o pai quando ganha a linguagem,

por volta de 1 ano.

De sua mãe nada sabemos,

o mar mitológico não devolve essa garrafa e,

nenhuma notícia sobre a Rainha chega aqui,

o que não significa, de forma alguma,

que não tenha existido, só por não ter sido contada.

Enquanto a mãe de Laio não conta,

sua juventude é valiosa e preservada com exílio,

um modo histórico de seguir vivo em determinados momentos dos acontecimentos

humanos.

No caso político-geográfico Tebas restava insegura para o jovem Príncipe,

logo Laio parte para Corinto, para casa do generoso

Rei Pélops, pai do príncipe Crisipo, esse também filho de uma mãe que, ainda que

Rainha, tampouco figura na história- o que não justifica o que está prestes a lhe

acontecer.

Fato que o jovem Laio exilado vira uma espécie de preceptor para o mais jovem ainda

príncipe Crisipo, e

os príncipes passam juntos seus dias de príncipes,

em aulas de pilotagem, e preparações especialmente voltadas para a temporada dos

Grandes Jogos que estão para começar mas, que o jovem e o mancebo não chegarão a

disputar, já que Laio perderá antes para si próprio.

Sem cerimônia ou compostura bancando seu desejo, sucumbindo a um ato impensado

ou, talvez pior, minuciosamente planejado,

Laio rapta o belo Crisipo.

E foge retornando para Tebas que recebe a dupla, curiosamente.

Rei Pélops, de Corinto reage

absolutamente abismado com tamanho acinte,

não necessariamente pela homossexualidade flagrada,

de homossexuais Corinto era cheia, embora ninguém tenha pulado da alcova para a

boca do povo tal como Laio se deu ao direito de fazer, tornando público, notório e

histórico um caso que tinha tudo para ser comum, escondido e esquecido pela humanidade,

Então, diante de tamanha violência, com uma quebra impressionante da lei da

hospitalidade, um príncipe raptando um príncipe! Um ingrato, um assediador de aluno,

sendo que isso até podia, mas Deuses concordam que não existe cabimento em uma

hospitalidade sendo ofendida, resumindo

Rei Pélops declara guerra, príncipe Crisipo acaba liberado mas, o estrago, estava feito.

Em algumas tradições Rei Pélops acabará por perdoar Laio reconhecendo o pathos da

paixão e, prefiro escolher essa versão para fechar esse parágrafo de esperança. Vã.

Porque Laio mesmo acaba o ciclo amaldiçoado por sua péssima conduta, LAIO OUVE

UM FILHO, UM DIA, VAI TE MATAR.

Então, Laio decide não ter filhos.

E Laio cumpre.

E Laio, por não ter tido filho,

é morto por um desconhecido,

Um homem a quem não criou, não desejou, e jamais chamou ou chamaria de filho.

Filho, para Laio, era a morte certa.

E a morte que acaba sofrendo na mão daquele estrangeiro foi a incerta, foi a morte

acidental, em uma discussão no trânsito, na estrada, com outro viajante. Se aqueles

olhos, daqueles homens, durante aquela pendenga, tivessem realmente se cruzado,

antes do derradeiro fim, ainda assim, não trairiam insights. Nada ilumina nada naquele

encontro entre desconhecidos. Entre transeuntes. Na banalidade do mal. Matar alguém

como se fosse ninguém. Devia merecer o maior dos julgamentos. Antes um filho tivesse

matado um pai?

Mas, o pai de Édipo, graças aos Deuses, segue são e salvo em seu Reino e, esse vai ser,

para sempre, o final feliz possível dessa tragédia, o fato de Mérope e Pólibo,

contrariando os vaticínios, jamais terem sucumbido a nenhuma maldição. Ajuda

imaginar que possa existir,

em algum lugar, um final feliz, outro reino.

Onde seus pais verdadeiros descansam, vivem a farta, incólumes.

Laio não é pai de Édipo. Jocasta não é mãe de Édipo. Laio é seu genitor; Jocasta, sua

genitora. Pólibo é seu pai; Mérope, sua mãe. Esta diferença não é um detalhe de

nomenclatura: é a operação que sustenta toda esta história.

Voltemos à juventude animada de Laio. Depois de abrir mão do príncipe Crisipo, Laio

casa-se com Jocasta, e se estabiliza no trono. E, em uma noite dita tórrida de paixão

e/ou bebedeira, historicamente embriagados, Laio e Jocasta concebem uma nova vida.

Se houvesse pílula do dia seguinte a história terminava aqui. A gravidez é indesejada

desde o primeiro instante. Laio conta da maldição para Jocasta que apoiará o plano do

marido abrindo mão, ao menos naquela oportunidade, do seu desejo de mãe.

É gestado um filho sem planos para sua criação.

Laio não mata o bebê no ventre para não fazer de Jocasta um túmulo? Fato é que se

aquele bebê era a personificação de um desejo, era do desejo de morte, um bebê que

nunca foi visto ou narrado como bebê, que já nasceu não como fruto do amor mas como

fruto de uma maldição, como um assassino, de Laio, de seu marido. Essa mulher aceita

que o corte fosse do filho, essa mulher decide a ausência que lhe pesaria mais. Um bebê

é pequeno, antes de existir, para muitos, nem existe. E talvez, more aqui o único lapso,

um traço de afeto, sabe, quando Laio dá o recém-nascido para Jocasta matar, talvez o rei tenha produzido então o único ato falho revelador de alguma compaixão, já que uma mãe, há de se supor, sofreria dificuldades naturais

em promover a morte de um filho, pode se presumir então que Laio deu pra Jocasta a

chance de mudar a história, e ela assim o fez. Seu último ato maternal foi transformar a

morte do bebê em outra ação, também determinante, onde ela deixaria de ser mãe e Laio

deixaria de ser pai. Onde um reino deixaria de ser herança. Daquele órfão, sem nome,

desterrado. E assim se fez. Irrevogavelmente.

Fato que, do período, por parte de Jocasta, a genitora, não se registra um pio, é Laio, o

genitor, quem encomenda a morte do recém-nascido que é, enfim, APENAS dado a um pastor

carrasco amarrado pelos pés. Jocasta deixa tudo passar e, podemos supor que tenha

retornado ao palácio de braço com Laio, como se a vida fosse o contrário da morte, como

se durar fosse uma meta digna. Um casal como outro qualquer. Sem desejos de descendência.

Enquanto isso, em outro reino não muito distante dali, Mérope e Pólibo reinam. Outro

casal sem filhos ainda que, no caso desses, não por escolha. Tentaram inúmeras vezes

mas, Zeus é caprichoso e não havia tratamentos hormonais disponíveis, então, quando um

pastor chega com um bebê machucado nos braços eles não tem dúvidas. Cumprem o destino.

Bem-aventurados os que não desesperam, aquele montinho de carne viva desperta em seus

pais um amor imediato e gigantesco. Em nome desse amor criam no abandonado um príncipe,

como se as forjas fossem da mesma matéria. E são. O bebê ganha um nome e um reino, e

especialmente o amor de uma mãe e de um pai.

Édipo - que significa pés inchados, e é interessante imaginar esses pais preocupados em

narrar ao nomeá-lo a memória da tortura que sofreu, para que nunca se repita?- chegou em

sua casa. Já era mesmo tempo de começar a viver, a parar de morrer. Tão pequenininho.

Com um choro trágico.

Mérope passa noites e dias acordada velando suas doenças e saúdes, seus medos, suas

esperanças. Pólibo não lembra da vida de antes de ser pai, e o reino agradece a

humanidade de um Rei tocado pelo amor incondicional. Sobrava para todos.

O que Pólibo e Mérope recebem não é apenas uma criança: recebem um filho.

Na vida de Édipo, são pai e mãe. A palavra “adoção”

nomeia a circunstância de chegada; não diminui a realidade da filiação.

Édipo cresce e a tradição conta que um dia ouve que era adotado, a palavra não foi essa,

postiço? Falso? Parece que alguns meninos irritados com a superioridade principesca

xingam Édipo de tudo que é nome e entre eles uma espécie de cavalo de tróia transporta a

dúvida sobre sua ascendência.

Édipo decide procurar um oráculo e, surpreso, recebe a informação de que um dia irá

matar seu pai e comer sua mãe. Desculpem os termos, ele não consegue pensar em outros,

Édipo imagina Mérope no leito conjugal e vomita, a boca cheira a bile, pensa em Pólibo

sob sua espada e grita, urra de dor. Não. Isso nunca vai acontecer. Não com ele,

não com seu pai, não com sua mãe. E o príncipe se exila sem olhar para trás. Mentira,

antes se despede dos pais, não faria essa desfeita aos velhos, mas sem tocar, com olhares

de amor e medo que jamais poderiam ser explicados. Nem precisava. Mérope e Pólibo

conheciam Édipo de cor, e concordaram ser essa, só mais uma fase. Que Édipo precisava

mesmo de novos ares. Que o reino tinha ficado pequeno para tão grande coração.

Édipo parte assim para sua cota de aventura como todo mundo merece partir um dia, deixando

a família para trás, com o mundo inteiro pela frente.

Mas há uma diferença decisiva entre descobrir que seu genitor é outro e descobrir que seu

pai não é seu pai. Uma descoberta sobre a origem não apaga retroativamente uma filiação.

O passado pode ser recontado e ainda assim um pai não desaparece porque uma informação genealógica mudou.

E já caminhava há semanas quando Édipo se depara com a esfinge.

Ele tem a resposta certa na ponta da língua cansada,

tudo que Édipo quer é um banho e uma refeição quente,

o que acaba ganhando junto com um trono e uma mulher.

A primeira vez que ouve que ganharia o trono e a mulher acha que é uma alucinação.

Nunca tinha ouvido falar de rainhas de brinde mas, era esse o costume de Tebas, Jocasta

vinha com o trono como um brinquedo com a sandalinha.

O vencedor do enigma da esfinge tinha certeza

de só ter ganho graças ao treinamento de sua mãe Mérope que passara sua infância inteira

fazendo anedotas e questionários e quiz e super trunfo e uno e palavras cruzadas e xadrez

para ajudar a passar o tempo moroso que insiste em se arrastar entre mães e filhos, entre

pais e filhos, e, para além das lições, quantos silêncios se cumulam confortáveis, entre

quem se ama com intimidade. Mas não seria bom pensar em sua mãe agora, Mérope devia estar

com tanta saudade dele e Édipo não quer lembrar disso porque fica culpado, ainda mais neste

minuto enquanto Jocasta tira o corselete, Zeus, Édipo não deseja de maneira nenhuma parecer

grosseiro mas, está exausto, zero excitado, se continuar pensando em Mérope jamais sustentará

uma ereção e repara que será preciso. Édipo precisa consumar o ato para se tornar Rei antes

de poder dormir o sono dos justos.

Naquela noite não sonha com nada.

Teve tudo o que jamais havia planejado, como qualquer mortal, a vida era maior que ele.

Mas não tão maior que não pudesse encaixá-la debaixo do braço dobrada feito uma baguete.

Explico.

O tempo passa, os filhos de Jocasta e Édipo nascem,

e o reino se afunda em nova confusão. Seca, peste, fome.

Oráculo consultado informa que um assassino de um rei precisa ser expulso dali para que a

paz retorne e Édipo não descansa até localizá-lo.

O que lamento imensamente:

Depois de ouvir pastores, oráculos, coros e Jocasta, Édipo devia ter acolhido as palavras de

um psicanalista lacaniano antes de furar os olhos.

O psicanalista entraria nessa cena na tragédia,

seguraria suas mãos (inchadas como seus pés, outrora?)

E diria baixinho:

Calma, Édipo, vou te ajudar a enxergar.

Já ouviu falar em Nome do Pai?

Pela teoria dos significantes, Laio jamais foi seu pai e não poderia se tornar retroativamente,

porque pai, Édipo, é uma função para além da biológica.

A ferida é a hierarquia entre a filiação biológica e a filiação adotiva, Édipo? Como alguém

chega a ocupar para um sujeito o lugar de pai?

Você matou um homem. Isso já é miséria suficiente, não podemos dramatizar a tragédia.

Teu pai é Pólibo que segue vivo e saudoso junto a sua mãe, e ambos te esperam, Édipo.

Seja desterrado. Desse reino que nunca foi de fato teu?

Da última vez que saíste daqui foi amarrado e destinado

A morte, Édipo, é só mais do mesmo.

Aceita ser odiado por Tebas, existe no mundo um reino

onde você é príncipe e te esperam em festa.

Jocasta nunca foi Mérope, e se um dia você saiu

pela porta que entrou, para delírio dos deuses, isso diz mais deles do que de você.

Nenhuma bola de Ping Pong pode ser responsabilizada por seu destino,

que os deuses se entendam com seus fetiches. O ser humano precisa dar conta do que pode dar

conta. O que excede o limite humano é sobre humano. E foge à nossa alçada.

E Édipo com olhos no lugar voltava pra casa,

onde Mérope prepara uma sopa, Pólibo prepara sua cama de príncipe. Jantam juntos, com poucas

palavras, confortáveis nos silêncios que se proporcionam, o clã dos sobreviventes.

(fim)


Considerações mitológicas: O que muda quando genitor e pai deixam de ser a mesma coisa?

O deslocamento fundamental produzido é simples de formular e claro em suas consequências:

Laio produz a genitura de Édipo e Pólibo produz sua filiação.

O primeiro é responsável pela transmissão corporal que dá origem à criança e o segundo é aquele que ocupa, na vida do sujeito, o lugar de pai.

Do mesmo modo:

Jocasta é a genitora e Mérope é a mãe.

A distinção não pretende diminuir a importância da origem corporal, tampouco pretende produzir uma hierarquia inversa, na qual a adoção seria “mais verdadeira” do que a genitura. O que está em questão é: origem e filiação são operações diferentes.

A origem informa uma procedência e filiação produz um lugar. É por isso que Édipo Adotado afirma que “esta diferença não é um detalhe de nomenclatura: é a operação que sustenta toda esta história”. Antes de Mérope e Pólibo, existe no mito uma criança, um corpo. De um bebê machucado, amarrado pelos pés, entregue a um pastor. Mas ainda não existe Édipo, nomeado e vinculado como filho de alguém. Não existe nome, reino, história familiar ou lugar filial. É na chegada à casa de Mérope e Pólibo que esse corpo passa a ocupar um lugar, onde o bebê recebe um nome, um reino, uma mãe, um pai e o corpo se torna filho.

No Seminário 4, Lacan pergunta diretamente: “O que é um pai?”. A pergunta não é meramente genealógica, ela desloca o pai da evidência biológica para a questão da função e da posição ocupada no campo simbólico. Em outro momento do mesmo seminário, Lacan formula de maneira ainda mais direta:

“O pai simbólico é o nome do pai.” 

O pai simbólico não é, necessariamente, um homem que produziu um espermatozoide. A função paterna pertence ao campo do significante. Lacan insiste, no Seminário 4, que não basta estabelecer uma analogia entre diferentes relações: quando os papéis são diferentes, estão em jogo relações estruturais diferentes. É nesse contexto que ele retoma a distinção entre simbólico, imaginário e real.

E é essa distinção que permite ler a situação de Édipo desse modo: Laio é seu genitor e Pólibo é seu pai. Não porque Pólibo tenha produzido seu corpo, mas porque ocupa, para Édipo, o lugar de pai. A questão deixa de ser, então, “quem é o verdadeiro pai?” e passa a ser:

qual relação produz esse lugar de pai?

Pólibo cria, cuida, espera, é aquele cuja vida Édipo conhece.

Mérope faz o mesmo do lado materno. É ela quem passa “noites e dias acordada” cuidando de suas doenças, medos e esperanças, quem participa da constituição de sua história.

Quando escuta a profecia, Édipo horrorizado não quer matar seu pai e o pai que existe para Édipo é Pólibo. A mãe que existe para Édipo é Mérope.

A posterior descoberta da origem corporal não deveria, por si mesma, produzir o desaparecimento retroativo dessas posições.

O passado pode ser recontado sem que aquele pai e aquela mãe desapareçam porque uma informação genealógica mudou.

Lacan e a função paterna

O Nome-do-Pai e o problema da nomeação

No Seminário 5, Lacan situa o Nome-do-Pai no nível do significante. Ele o define como o significante que dá esteio à lei e relaciona essa formulação ao próprio mito de Édipo.

E aqui existe um ponto que nos permite uma torção importante.

No mito original, a informação “você matou seu pai” funciona como uma sentença absoluta. O problema de Édipo Adotado é perguntar o que acontece quando essa frase é tomada sem que se diferencie o homem morto da posição que ele ocupou.

Édipo matou Laio, isso é um fato da história mas, Laio não era seu pai.

A equivalência que produziu a tragédia convencionalmente:

Laio = pai.

Logo:

matar Laio = matar o pai.

É uma equivalência que precisa ser interrogada.

Édipo não é inocente, matou um homem, é responsável por esse ato mas, não matou seu pai. A questão, portanto, sem retirar de Édipo a responsabilidade por aquilo que fez,é perguntar de que ato ele é culpado. Essa diferença é fundamental. O que lhe é imposto pelo Grande Outro é outra coisa: o nome de sua culpa. Um crime aconteceu e o erro está na interpretação que transforma aquele assassinato em parricídio.

A tragédia do Grande Outro

É aqui que a hipótese central deste artigo pode ser formulada:

A tragédia de Édipo não é ter descoberto sua origem. É ter tomado como realidade a narrativa que o Grande Outro produziu sobre essa origem.

O Grande Outro não coincide com o Real.

O Real não é aquilo que o Outro diz que aconteceu. O que aconteceu foi uma coisa: um homem matou outro homem numa estrada.

O que veio depois foi outra coisa: essa morte recebeu uma narrativa.

Laio foi nomeado como pai e Édipo foi nomeado como filho. A morte foi nomeada como parricídio. A relação sexual com Jocasta foi nomeada como incesto. E Édipo passou a habitar essa narrativa como se ela fosse a própria realidade de sua existência.É nesse ponto que a tragédia pode ser compreendida como um processo de desconhecimento de si.

Édipo começa querendo proteger seus pais, foge justamente porque acredita na profecia e não deseja matar Pólibo, não deseja tocar em Mérope, não deseja transformar sua vida numa violência contra aqueles que ama. E nesse sentido, logrou êxito.

Diante da versão do Grande Outro Édipo desconheceu-se e se perdeu. Passa a tomar uma narrativa sobre sua origem como a verdade total de sua existência, uma informação sobre a procedência do corpo pode ser verdadeira e, ainda assim, não dizer tudo sobre quem alguém é. A origem pode ser descoberta mas a filiação precisa ser inscrita.E ninguém, nem um oráculo, pode entregar a alguém, como uma sentença, a resposta definitiva à pergunta: “de quem você é filho?”

O Real invade a estrada

Um homem encontra outro homem na estrada, depois de uma discussão, o mata.

Quantas vezes aconteceu uma violência parecida na história dos homens, essa banalidade do mal. Édipo não reconhece Laio que não reconhece Édipo, não existe encontro entre pai e filho mas, entre dois desconhecidos e, a morte de Laio acontece nesse espaço vazio de sentido. Porque o real é um rio que te transborda. O Real invade as cenas feito lava.

Depois da morte de Laio o discurso lhe atribui um sentido. E é possível formular essa inversão assim:

Não foi o destino que produziu o encontro; foi o discurso posterior que transformou um encontro sem sentido em destino.

Essa diferença importa porque desloca a relação entre acontecimento e narrativa.

E o acontecimento não precisa desaparecer para que a narrativa seja interrogada.

Édipo matou Laio. Mas o fato de ter matado Laio não produz, sozinho, a conclusão de que matou seu pai.Essa conclusão é uma operação simbólica e por isso, pode ser questionada.

O que Édipo cegou

A cegueira de Édipo é uma das imagens mais poderosas da tradição e costumamos compreendê-la como punição, reconhecimento ou consequência de uma verdade insuportável. Essa pesquisa propõe mais uma leitura.

Édipo já conhecia Mérope e Pólibo.

Já sabia quem o criou, quem o amou, quem o chamou de filho, sabia onde era sua casa.

O que ele não conseguiu fazer foi sustentar essa realidade diante da narrativa que o Grande Outro lhe devolveu. Édipo acreditou na narrativa contra aquilo que sua própria vida lhe contava:

o que Édipo cegou poderia tê-lo salvo de si próprio?

Precisava distinguir Laio de Pólibo, Jocasta de Mérope, genitura de filiação, origem de identidade, acontecimento de interpretação, o que fez daquilo que disseram que fez. Distinguir o Grande Outro do Real.

Um homem encontra outro homem na estrada, depois de uma discussão, o mata.

Quantas vezes aconteceu uma violência parecida na história dos homens, essa banalidade do mal. Édipo não reconhece Laio que não reconhece Édipo, não existe encontro entre pai e filho mas, entre dois desconhecidos e, a morte de Laio acontece nesse espaço vazio de sentido. Porque o real é um rio que te transborda. O Real invade as cenas feito lava.

Depois da morte de Laio o discurso lhe atribui um sentido. E é possível formular essa inversão assim:

Não foi o destino que produziu o encontro; foi o discurso posterior que transformou um encontro sem sentido em destino.

Essa diferença importa porque desloca a relação entre acontecimento e narrativa.

E o acontecimento não precisa desaparecer para que a narrativa seja interrogada.

Édipo matou Laio. Mas o fato de ter matado Laio não produz, sozinho, a conclusão de que matou seu pai.Essa conclusão é uma operação simbólica e por isso, pode ser questionada.

FLORES, Cristina. Édipo Adotado. Setembro de 2026. Texto autoral.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 4: a relação de objeto. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Dulce Duque Estrada. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1995. A edição brasileira é de 1995.

LACAN, Jacques. O seminário, livro 5: as formações do inconsciente. Texto estabelecido por Jacques-Alain Miller. Tradução de Vera Ribeiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1999

Um homem encontra outro homem na estrada, depois de uma discussão, o mata.

Quantas vezes aconteceu uma violência parecida na história dos homens, essa banalidade do mal. Édipo não reconhece Laio que não reconhece Édipo, não existe encontro entre pai e filho mas, entre dois desconhecidos e, a morte de Laio acontece nesse espaço vazio de sentido. Porque o real é um rio que te transborda. O Real invade as cenas feito lava.

Depois da morte de Laio o discurso lhe atribui um sentido. E é possível formular essa inversão assim:

Não foi o destino que produziu o encontro; foi o discurso posterior que transformou um encontro sem sentido em destino.

Essa diferença importa porque desloca a relação entre acontecimento e narrativa.

E o acontecimento não precisa desaparecer para que a narrativa seja interrogada.

Édipo matou Laio. Mas o fato de ter matado Laio não produz, sozinho, a conclusão de que matou seu pai.Essa conclusão é uma operação simbólica e por isso, pode ser questionada.

Referências

Origem, filiação e identidade

A questão de Édipo ultrapassa o problema do parentesco e alcança uma questão contemporânea fundamental: como uma sociedade constrói a ideia de identidade a partir da origem?

Uma das consequências mais importantes de uma leitura lacaniana do mito é perceber que a procedência de um corpo não determina automaticamente o lugar que os outros ocupam para esse sujeito.

A origem informa de onde algo veio.

A filiação diz respeito aos lugares construídos numa história.

Essa diferença pode ser particularmente importante quando pensamos adoção, reprodução assistida, famílias homoafetivas, e tantas outras formas contemporâneas de parentalidade.

A pergunta

“Quem gerou?”

não responde

“Quem criou?”

“Quem nomeou?”

“Quem cuidou?”

“Quem foi reconhecido como pai ou mãe?”

“Que lugar essa pessoa ocupa na história daquele sujeito?”

Sem negar a biologia mas evitando que a biologia seja transformada em destino.

Laio e Jocasta são importantes para a história de Édipo, mas ser importante para a história de alguém não significa ocupar qualquer lugar indistintamente nessa história. A origem pode ser uma parte mas não é, necessariamente, a história inteira.

**Uma revisão lacaniana do mito sobre o mito**

Lacan não apenas leu Édipo, a psicanálise fez de Édipo uma de suas grandes máquinas de leitura, por isso, parece necessário fazer o movimento inverso e, lermos o mito com aquilo que aprendemos com Lacan.

Se o pai não se reduz ao genitor, então Laio não precisa tornar-se pai porque foi descoberto como genitor. Se a função paterna é uma função simbólica, então a filiação não pode ser reduzida à transmissão corporal. Se o Nome-do-Pai opera no campo do significante, então não é possível simplesmente colar uma pessoa a uma função por meio da genealogia.

E se o Grande Outro não coincide com o Real, então a narrativa do Outro não pode ser tomada automaticamente como a realidade última de um sujeito. E, nesse ponto, o mito deixa de ser apenas um mito sobre Édipo e, passa a ser também um mito sobre aquilo que acontece quando uma cultura confunde origem e identidade.

Édipo precisava conhecer sua origem e não desconhecer sua filiação e não precisava cegar-se para aquilo que havia descoberto mas, distinguir aquilo que havia acontecido daquilo que disseram que havia acontecido.

Uma cultura que acredita que a filiação está contida integralmente na genitura corre o risco de transformar a procedência em essência.

E, quando a procedência se transforma em essência, o sujeito passa a ser imaginado como portador de uma verdade anterior à sua própria história. O sujeito deixa de ser aquilo que se construiu numa rede de relações e passa a ser tratado como aquilo que supostamente estava escondido em algum lugar de sua origem e, Édipo oferece uma imagem extrema desse mecanismo.

Ele descobre uma origem e essa descoberta passa a reorganizar tudo, mas talvez não devesse.

Talvez existam informações que modificam nossa narrativa sem destruir aquilo que construímos.

Mérope e Pólibo não são uma etapa provisória até que a “verdade” seja descoberta. Eles são parte constitutiva da construção do sujeito de Édipo.

Sua filiação não desaparece porque sua origem foi revelada. Essa formulação pode ser particularmente importante numa cultura em que ainda se imagina que alguém possa chegar e dizer:

“Agora eu vou te contar quem você realmente é.”

E não. Ninguém pode dizer a ninguém de quem ele é.

Pode contar uma história, apresentar uma informação, revelar uma procedência sem conseguir fabricar sozinho a consistência subjetiva de uma vida. Porque as fundações são fundas. São ações. Uma relação é uma real ação, precisa resistir o que não dá para desver.