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Cristina Flores
Édipo Adotado
Édipo matou seu pai, ou somente seu genitor? A tragédia de um conflito entre o que se nasce e o que se é
Uma revisão lacaniana do mito sobre o mito
Édipo talvez seja o personagem mais conhecido da tradição psicanalítica. Seu nome atravessa a literatura, a filosofia, a antropologia e, sobretudo, a psicanálise. Freud encontra no mito uma estrutura capaz de nomear uma questão fundamental da constituição subjetiva. Lacan, posteriormente, retoma Édipo em sua elaboração do significante, da função paterna, do Nome-do-Pai e da estrutura simbólica.
A primeira pergunta que orienta este artigo é o que acontece quando conceitos lacanianos servem como chaves para leitura do mito? Não se trata de corrigir Sófocles a partir de Lacan, ou de afirmar que Lacan descobriu algo que o mito não sabia. A hipótese aqui é que aquilo que Lacan nos permite formular já estava em cena. A distinção entre aquilo que aconteceu e aquilo que se diz que aconteceu; entre o homem que morreu e o lugar que esse homem ocupa para o sujeito; entre procedência e filiação; entre o Real e a narrativa produzida no campo do Outro — tudo isso pode ser reencontrado na própria estrutura da tragédia.
Lacan fornece, portanto, para além de uma explicação posterior do mito, instrumentos para tornar legível uma diferença que o mito já continha.
É nesse sentido que Édipo Adotado funciona como um experimento literário: ao separar genitor de pai, genitora de mãe e origem de filiação, o texto produz uma alteração na estrutura conhecida e, essa alteração modifica o destino do personagem.
O que faz alguém ocupar o lugar de pai ou de mãe para um sujeito?
O que acontece quando uma narrativa sobre a origem se sobrepõe à própria realidade do sujeito? Édipo é culpado, matou Laio, o que Édipo não fez foi matar seu pai. E essa diferença desloca a tragédia.
ÉDIPO ADOTADO, por Cristina Flores
Laio perde o pai quando ganha a linguagem,
por volta de 1 ano.
De sua mãe nada sabemos,
o mar mitológico não devolve essa garrafa e,
nenhuma notícia sobre a Rainha chega aqui,
o que não significa, de forma alguma,
que não tenha existido, só por não ter sido contada.
Enquanto a mãe de Laio não conta,
sua juventude é valiosa e preservada com exílio,
um modo histórico de seguir vivo em determinados momentos dos acontecimentos
humanos.
No caso político-geográfico Tebas restava insegura para o jovem Príncipe,
logo Laio parte para Corinto, para casa do generoso
Rei Pélops, pai do príncipe Crisipo, esse também filho de uma mãe que, ainda que
Rainha, tampouco figura na história- o que não justifica o que está prestes a lhe
acontecer.
Fato que o jovem Laio exilado vira uma espécie de preceptor para o mais jovem ainda
príncipe Crisipo, e
os príncipes passam juntos seus dias de príncipes,
em aulas de pilotagem, e preparações especialmente voltadas para a temporada dos
Grandes Jogos que estão para começar mas, que o jovem e o mancebo não chegarão a
disputar, já que Laio perderá antes para si próprio.
Sem cerimônia ou compostura bancando seu desejo, sucumbindo a um ato impensado
ou, talvez pior, minuciosamente planejado,
Laio rapta o belo Crisipo.
E foge retornando para Tebas que recebe a dupla, curiosamente.
Rei Pélops, de Corinto reage
absolutamente abismado com tamanho acinte,
não necessariamente pela homossexualidade flagrada,
de homossexuais Corinto era cheia, embora ninguém tenha pulado da alcova para a
boca do povo tal como Laio se deu ao direito de fazer, tornando público, notório e
histórico um caso que tinha tudo para ser comum, escondido e esquecido pela humanidade,
Então, diante de tamanha violência, com uma quebra impressionante da lei da
hospitalidade, um príncipe raptando um príncipe! Um ingrato, um assediador de aluno,
sendo que isso até podia, mas Deuses concordam que não existe cabimento em uma
hospitalidade sendo ofendida, resumindo
Rei Pélops declara guerra, príncipe Crisipo acaba liberado mas, o estrago, estava feito.
Em algumas tradições Rei Pélops acabará por perdoar Laio reconhecendo o pathos da
paixão e, prefiro escolher essa versão para fechar esse parágrafo de esperança. Vã.
Porque Laio mesmo acaba o ciclo amaldiçoado por sua péssima conduta, LAIO OUVE
UM FILHO, UM DIA, VAI TE MATAR.
Então, Laio decide não ter filhos.
E Laio cumpre.
E Laio, por não ter tido filho,
é morto por um desconhecido,
Um homem a quem não criou, não desejou, e jamais chamou ou chamaria de filho.
Filho, para Laio, era a morte certa.
E a morte que acaba sofrendo na mão daquele estrangeiro foi a incerta, foi a morte
acidental, em uma discussão no trânsito, na estrada, com outro viajante. Se aqueles
olhos, daqueles homens, durante aquela pendenga, tivessem realmente se cruzado,
antes do derradeiro fim, ainda assim, não trairiam insights. Nada ilumina nada naquele
encontro entre desconhecidos. Entre transeuntes. Na banalidade do mal. Matar alguém
como se fosse ninguém. Devia merecer o maior dos julgamentos. Antes um filho tivesse
matado um pai?
Mas, o pai de Édipo, graças aos Deuses, segue são e salvo em seu Reino e, esse vai ser,
para sempre, o final feliz possível dessa tragédia, o fato de Mérope e Pólibo,
contrariando os vaticínios, jamais terem sucumbido a nenhuma maldição. Ajuda
imaginar que possa existir,
em algum lugar, um final feliz, outro reino.
Onde seus pais verdadeiros descansam, vivem a farta, incólumes.
Laio não é pai de Édipo. Jocasta não é mãe de Édipo. Laio é seu genitor; Jocasta, sua
genitora. Pólibo é seu pai; Mérope, sua mãe. Esta diferença não é um detalhe de
nomenclatura: é a operação que sustenta toda esta história.
Voltemos à juventude animada de Laio. Depois de abrir mão do príncipe Crisipo, Laio
casa-se com Jocasta, e se estabiliza no trono. E, em uma noite dita tórrida de paixão
e/ou bebedeira, historicamente embriagados, Laio e Jocasta concebem uma nova vida.
Se houvesse pílula do dia seguinte a história terminava aqui. A gravidez é indesejada
desde o primeiro instante. Laio conta da maldição para Jocasta que apoiará o plano do
marido abrindo mão, ao menos naquela oportunidade, do seu desejo de mãe.
É gestado um filho sem planos para sua criação.
Laio não mata o bebê no ventre para não fazer de Jocasta um túmulo? Fato é que se
aquele bebê era a personificação de um desejo, era do desejo de morte, um bebê que
nunca foi visto ou narrado como bebê, que já nasceu não como fruto do amor mas como
fruto de uma maldição, como um assassino, de Laio, de seu marido. Essa mulher aceita
que o corte fosse do filho, essa mulher decide a ausência que lhe pesaria mais. Um bebê
é pequeno, antes de existir, para muitos, nem existe. E talvez, more aqui o único lapso,
um traço de afeto, sabe, quando Laio dá o recém-nascido para Jocasta matar, talvez o rei tenha produzido então o único ato falho revelador de alguma compaixão, já que uma mãe, há de se supor, sofreria dificuldades naturais
em promover a morte de um filho, pode se presumir então que Laio deu pra Jocasta a
chance de mudar a história, e ela assim o fez. Seu último ato maternal foi transformar a
morte do bebê em outra ação, também determinante, onde ela deixaria de ser mãe e Laio
deixaria de ser pai. Onde um reino deixaria de ser herança. Daquele órfão, sem nome,
desterrado. E assim se fez. Irrevogavelmente.
Fato que, do período, por parte de Jocasta, a genitora, não se registra um pio, é Laio, o
genitor, quem encomenda a morte do recém-nascido que é, enfim, APENAS dado a um pastor
carrasco amarrado pelos pés. Jocasta deixa tudo passar e, podemos supor que tenha
retornado ao palácio de braço com Laio, como se a vida fosse o contrário da morte, como
se durar fosse uma meta digna. Um casal como outro qualquer. Sem desejos de descendência.
Enquanto isso, em outro reino não muito distante dali, Mérope e Pólibo reinam. Outro
casal sem filhos ainda que, no caso desses, não por escolha. Tentaram inúmeras vezes
mas, Zeus é caprichoso e não havia tratamentos hormonais disponíveis, então, quando um
pastor chega com um bebê machucado nos braços eles não tem dúvidas. Cumprem o destino.
Bem-aventurados os que não desesperam, aquele montinho de carne viva desperta em seus
pais um amor imediato e gigantesco. Em nome desse amor criam no abandonado um príncipe,
como se as forjas fossem da mesma matéria. E são. O bebê ganha um nome e um reino, e
especialmente o amor de uma mãe e de um pai.
Édipo - que significa pés inchados, e é interessante imaginar esses pais preocupados em
narrar ao nomeá-lo a memória da tortura que sofreu, para que nunca se repita?- chegou em
sua casa. Já era mesmo tempo de começar a viver, a parar de morrer. Tão pequenininho.
Com um choro trágico.
Mérope passa noites e dias acordada velando suas doenças e saúdes, seus medos, suas
esperanças. Pólibo não lembra da vida de antes de ser pai, e o reino agradece a
humanidade de um Rei tocado pelo amor incondicional. Sobrava para todos.
O que Pólibo e Mérope recebem não é apenas uma criança: recebem um filho.
Na vida de Édipo, são pai e mãe. A palavra “adoção”
nomeia a circunstância de chegada; não diminui a realidade da filiação.
Édipo cresce e a tradição conta que um dia ouve que era adotado, a palavra não foi essa,
postiço? Falso? Parece que alguns meninos irritados com a superioridade principesca
xingam Édipo de tudo que é nome e entre eles uma espécie de cavalo de tróia transporta a
dúvida sobre sua ascendência.
Édipo decide procurar um oráculo e, surpreso, recebe a informação de que um dia irá
matar seu pai e comer sua mãe. Desculpem os termos, ele não consegue pensar em outros,
Édipo imagina Mérope no leito conjugal e vomita, a boca cheira a bile, pensa em Pólibo
sob sua espada e grita, urra de dor. Não. Isso nunca vai acontecer. Não com ele,
não com seu pai, não com sua mãe. E o príncipe se exila sem olhar para trás. Mentira,
antes se despede dos pais, não faria essa desfeita aos velhos, mas sem tocar, com olhares
de amor e medo que jamais poderiam ser explicados. Nem precisava. Mérope e Pólibo
conheciam Édipo de cor, e concordaram ser essa, só mais uma fase. Que Édipo precisava
mesmo de novos ares. Que o reino tinha ficado pequeno para tão grande coração.
Édipo parte assim para sua cota de aventura como todo mundo merece partir um dia, deixando
a família para trás, com o mundo inteiro pela frente.
Mas há uma diferença decisiva entre descobrir que seu genitor é outro e descobrir que seu
pai não é seu pai. Uma descoberta sobre a origem não apaga retroativamente uma filiação.
O passado pode ser recontado e ainda assim um pai não desaparece porque uma informação genealógica mudou.
E já caminhava há semanas quando Édipo se depara com a esfinge.
Ele tem a resposta certa na ponta da língua cansada,
tudo que Édipo quer é um banho e uma refeição quente,
o que acaba ganhando junto com um trono e uma mulher.
A primeira vez que ouve que ganharia o trono e a mulher acha que é uma alucinação.
Nunca tinha ouvido falar de rainhas de brinde mas, era esse o costume de Tebas, Jocasta
vinha com o trono como um brinquedo com a sandalinha.
O vencedor do enigma da esfinge tinha certeza
de só ter ganho graças ao treinamento de sua mãe Mérope que passara sua infância inteira
fazendo anedotas e questionários e quiz e super trunfo e uno e palavras cruzadas e xadrez
para ajudar a passar o tempo moroso que insiste em se arrastar entre mães e filhos, entre
pais e filhos, e, para além das lições, quantos silêncios se cumulam confortáveis, entre
quem se ama com intimidade. Mas não seria bom pensar em sua mãe agora, Mérope devia estar
com tanta saudade dele e Édipo não quer lembrar disso porque fica culpado, ainda mais neste
minuto enquanto Jocasta tira o corselete, Zeus, Édipo não deseja de maneira nenhuma parecer
grosseiro mas, está exausto, zero excitado, se continuar pensando em Mérope jamais sustentará
uma ereção e repara que será preciso. Édipo precisa consumar o ato para se tornar Rei antes
de poder dormir o sono dos justos.
Naquela noite não sonha com nada.
Teve tudo o que jamais havia planejado, como qualquer mortal, a vida era maior que ele.
Mas não tão maior que não pudesse encaixá-la debaixo do braço dobrada feito uma baguete.
Explico.
O tempo passa, os filhos de Jocasta e Édipo nascem,
e o reino se afunda em nova confusão. Seca, peste, fome.
Oráculo consultado informa que um assassino de um rei precisa ser expulso dali para que a
paz retorne e Édipo não descansa até localizá-lo.
O que lamento imensamente:
Depois de ouvir pastores, oráculos, coros e Jocasta, Édipo devia ter acolhido as palavras de
um psicanalista lacaniano antes de furar os olhos.
O psicanalista entraria nessa cena na tragédia,
seguraria suas mãos (inchadas como seus pés, outrora?)
E diria baixinho:
Calma, Édipo, vou te ajudar a enxergar.
Já ouviu falar em Nome do Pai?
Pela teoria dos significantes, Laio jamais foi seu pai e não poderia se tornar retroativamente,
porque pai, Édipo, é uma função para além da biológica.
A ferida é a hierarquia entre a filiação biológica e a filiação adotiva, Édipo? Como alguém
chega a ocupar para um sujeito o lugar de pai?
Você matou um homem. Isso já é miséria suficiente, não podemos dramatizar a tragédia.
Teu pai é Pólibo que segue vivo e saudoso junto a sua mãe, e ambos te esperam, Édipo.
Seja desterrado. Desse reino que nunca foi de fato teu?
Da última vez que saíste daqui foi amarrado e destinado
A morte, Édipo, é só mais do mesmo.
Aceita ser odiado por Tebas, existe no mundo um reino
onde você é príncipe e te esperam em festa.
Jocasta nunca foi Mérope, e se um dia você saiu
pela porta que entrou, para delírio dos deuses, isso diz mais deles do que de você.
Nenhuma bola de Ping Pong pode ser responsabilizada por seu destino,
que os deuses se entendam com seus fetiches. O ser humano precisa dar conta do que pode dar
conta. O que excede o limite humano é sobre humano. E foge à nossa alçada.
E Édipo com olhos no lugar voltava pra casa,
onde Mérope prepara uma sopa, Pólibo prepara sua cama de príncipe. Jantam juntos, com poucas
palavras, confortáveis nos silêncios que se proporcionam, o clã dos sobreviventes.
(fim)
